Profº Antonio Candido de Mello e Souza | Formação da crítica literária brasileira

Nunca conheci pessoalmente o Profº Antonio Candido de Mello e Souza. Vou reformular: era jovem demais quando vi pessoalmente o prof. Antonio Candido de Mello e Souza. Na época, eu era um calouro do Instituto de Estudos da Linguagem, quando o professor foi fazer uma palestra de comemoração de trinta anos de sua fundação, a qual ele teve papel essencial, e, como lembrou-me minha esposa neste dia, eu me perguntava na época se seria permitido a alunos de graduação atenderem-na: ora, o mais renomado acadêmico da teoria literária brasileira certamente, se fizesse uma fala para tal celebração, aconteceria com restrições de público. Mas não. Lembro-me de ter sentado ao fundo do auditório do IEL, ao lado de colegas e amigos recentes; contudo, por mais que tentei arduamente recordar, sua fala caiu no meu ouvido. A minha juventude, a minha tenra e altiva idade me tiraram esta memória.

 Mas este não foi o único Antonio Candido que passa na minha memória. Passa, sim, o crítico literário, que, como colocou o prof. Paulo Franchetti, também do IEL, sua obra é incontornável. Por muito tempo, em realidade, a crítica do professor Candido me foi inimiga, não compreendia seu viés quando jovem, mas bastou um pouco de madureza para que a iluminação de seu intelecto me mostrasse a grandeza de seu pensamento. Um crítico que lê verdadeiramente a literatura, e não somente a usa como exemplo de teorias; um autor que percebeu o valor absoluto da constituição cultural e identitária presente na riquíssima literatura brasileira e, mais importante de tudo, que percebeu e nos mostrou — a todos — que a literatura brasileira tem o valor maior de todos, não sendo menor que nenhuma outra e maior que muitas.

 O caminho crítico de Antonio Candido, sua metodologia e sua visão, bem como suas orientações e liderança no campo das humanidades (literatura e também sociologia) permitiram que a crítica literária no Brasil aflorasse no meio acadêmico, mas, em maior plano, que ela se tornasse algo acessível: seu estilo ensaístico é invejável, sua clareza e objetividade, ao mesmo tempo que é agudo e penetrante, em diversos níveis. O viés sociológico de sua obra é hoje, talvez, o caminho mais usado e louvado da academia, bem como ele mesmo abriu portas para tantos outros críticos e interpretações canônicas da literatura brasileira: o que seria d’Um mestre na periferia do capitalismo se não fosse o professor Antonio Candido, por exemplo?

 Hoje qualquer estudioso de literatura minimamente sério, ou qualquer indivíduo que tenha pretensões de apreciar literatura mais seriamente, deve a Antonio Candido. O abalo sísmico que senti ao ler a notícia de sua morte na madrugada de hoje somente me demonstra o quão eu mesmo devo tanto ao crítico, que me influencia em tantos níveis: como patrono ou mesmo como adversário. Da maneira como qualquer um que escreve em oitava rima em língua portuguesa dialoga com Camões e com o texto fundamental do português, qualquer indivíduo que escreva crítica literária em português dialoga com a obra de Antonio Candido, o verdadeiro formador da crítica literária brasileira.

 

 Texto de: Guilherme de Faria Rodrigues, Professor do Colégio da Villa para o Ensino Médio
Mestre em Letras Clássicas
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo (USP)
“defugiunt auidos carmina sola rogos.”

 

vídeo: https://youtu.be/o9uxb9ZqMy4

Morre o Profº Antonio Candido de Mello e Souza